O sertão é a terra do outro. É onde podemos ser selvagens, irracionais, arbitrários. Nos sertões, não existem cidadãos, direitos ou limites - existe apenas Deus e o Diabo. E às vezes, só o Diabo.
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Os sertões, de Euclides da Cunha, é o relato impressionante de um militar decepcionado com o governo, o exército e a imprensa no Brasil na cobertura de uma das maiores tragédias de nossa história. O ex-militar critica duramente um sistema estúpido em que os tomadores de decisões provocam tragédias sem o menor senso crítico a respeito de si mesmos, numa atitude que mistura irracionalidade, desprezo pela vida e a ausência de Estado. Seu relato, apesar de ter sido publicado em 1906 é de uma atualidade impressionante.
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Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo."Em 1897, a quarta expedição do exército brasileiro enviada para o Morro da Favela não conseguiu a tarefa relativamente simples de subjugar Canudos. O País foi obrigado a matar cada resistente, exceção feita a algumas mulheres que se entregaram orientadas por seus maridos: o custo de vidas foi estrondosamente alto, tanto para o lado vencedor quanto para o lado perdedor. O relato de Euclides da Cunha salienta o fracasso da operação, mesmo do ponto de vista estritamente militar.
Em primeiro lugar, foram necessárias nada menos que quatro expedições e a mobilização de cerca de doze mil soldados para lidar com um grupo de vinte e cinco mil maltrapilhos armados a facão e arcabuzes velhos. Se a simples quantidade de tentativas e soldados mobilizados por si só já dá um bom indício da incompetência dos comandantes, a descrição detalhada de cada expedição confirma. O livro deixa claro que os ensinamentos mais básicos da teoria militar foram esquecidos, como usar conhecimentos dos locais a respeito do terreno.
A série de erros dos comandantes militares foi deixando a situação cada vez pior. Durante a terceira expedição, por exemplo, Moreira César tentou resolver tudo de uma vez e de forma espetaculosa, preferindo queimar etapas. Os soldados estavam em menor número, mas tinham armas muito melhores, fuzis com alcance superior a quinhentos metros. Para vencer o assentamento, bastava um cerco bem feito que acabasse com a água e a comida de Canudos. Os rebeldes, apesar de estarem em maior número, usavam facões e arcabuzes centenários, muitas vezes usando pedras, ossos e moedas no lugar de balas. Moreira César, no entanto, mostrou-se impaciente e preferiu adotar outra estratégia: mandou os soldados entrarem logo de uma vez no labirinto de casas e vielas. Toda a vantagem de possuir os fuzis mais modernos foi perdida. Sem planejamento adequado, a infantaria se fragmentou, as unidades isoladas umas das outras, lutando no corpo a corpo em terreno desconhecido, simplesmente entraram em pânico. O resultado foi desastroso - quem pôde, fugiu, largando para trás as armas para correr melhor. Além de crescer em moral, o bando de Antônio Conselheiro ganhou mais seguidores porque conseguiu a terceira vitória seguida sobre o governo. Pior, passou a ficar muito bem armado. O comandante morreu na ocasião, mas recebeu um prêmio pelos seus feitos: virou herói.
Além dos erros básicos na ofensiva, o amadorismo se estendeu à diplomacia e à espionagem. Não existe manual militar que não pregue a importância fundamental dessas duas atividades na guerra. Sem isso, as partes não conseguem se orientar, agindo às cegas e se esforçando à toa. Em Canudos, os boatos circulavam completamente sem controle. Em diversos momentos, as forças do governo realizaram manobras estúpidas por pura falta de seguir o aconselhamento dos locais. Euclides da Cunha reforça que as tropas por pouco não foram encurraladas em pleno sertão. Para piorar, incitado pelo ódio da própria incompetência, o exército optou pela tática do terror, e começou a aplicar a pena de morte informal com os prisioneiros.
"A degolação era, por isto, infinitamente mais prática, dizia -se nuamente. Aquilo (...) Não era a ação severa das leis, era a vingança."
Os manuais de guerra normalmente aconselham sempre deixar-se a porta aberta à rendição. Não por pena, mas para que o inimigo fique mais tentado a desistir. Quando se está diante de gente lutando para defender lares e famílias, a recomendação é que se trate muito bem os prisioneiros, pelo menos até a guerra acabar. Contra um inimigo fanatizado então, todo cuidado é pouco para convencê-lo a ser racional. Em Canudos fez-se justamente o contrário. Os comandantes preferiram-se a estupidez da pena de morte, o que cristalizou nos rebeldes a certeza de que eles realmente lutavam contra o próprio Satã. Como um escorpião encurralado, todos derrubaram até a última gota de sangue na defesa de sua causa e suas famílias.
Todo esse descaso com o planejamento e as lições mais elementares dos manuais de guerra causou um número de baixas absurdo. Do lado do governo, pereceram 50%; do lado dos rebeldes, 80%. Somente como parâmetro, na Guerra de Secessão nos Estados Unidos, que aconteceu quarenta anos antes de Canudos, as baixas foram respectivamente de 15% para o lado vencedor e 25% para o perdedor. Isso porque numa batalha em que os elementos de planejamento estratégico são respeitados, os lados não procuram lutar até a exaustão das forças. Após ficar claro que um dos lados vai inevitavelmente perder, começa o diálogo e as negociações para a rendição. Se o lado perdedor for teimoso, realiza-se um cerco que tem a vantagem de poupar vidas e demonstrar na prática a inviabilidade do conflito.
As fileiras de soldados se constituíam de negros, mulatos e pobres - que eram subcidadãos. A Guerra do Paraguai, por exemplo, também teve 50% de perdas no lado vencedor, e foi considerada um sucesso. Mesmo assim, isso sozinho não explica a alta mortandade; na maioria dos países e contextos históricos, o exército também se constitui de cidadãos das classes menos abastadas. No Brasil, existe uma falta de valorização da vida e do planejamento.
Sérgio Buarque de Hollanda, em
Raízes do Brasil detalha esse ponto. Nossa agricultura, por exemplo, não usava até bem pouco tempo atrás o arado, uma invenção do final da Idade Média. Os plantadores de cana copiaram dos índios a prática rudimentar de queimar os campos depois da colheita. A maneira com que os senhores tratavam os escravos tampouco era boa; os negros no Brasil tinham expectativa de vida bem inferior àqueles dos Estados Unidos, apesar da alegação de que eles eram bem tratados.
Apesar de o governo não se importar muito com a preservação da vida dos moradores de Canudos, ou mesmo dos soldados que foram lá combatê-los, as três derrotas seguidas eram um vexame que precisava ser explicado. Para justificar seus erros, a imprensa criou um monstro fictício que pudesse transformar a série de erros cometidos em um conflito épico e heróico. A tese que a imprensa da época levantou era que os sertanejos maltrapilhos e mal-armados seguramente recebiam algum financiamento e apoio. Como a República tinha apenas oito anos de idade e pairava ainda alguma paranóia, criou-se a hipótese de que grupos monarquistas estavam por trás de tudo, tramando a volta do Rei que viria derrubar o Presidente. Para explicar a força de um fanático religioso no interior da Bahia, imaginaram toda uma conspiração. Euclides da Cunha ironizou: "
(...) a opinião nacional, pela imprensa, extravagava, balanceando as mais aventurosas hipóteses (...) O espantalho da restauração monárquica negrejava, de novo, no horizonte político atroado detormentas."
Mas de todos os aspectos analisados do conflito, seguramente o maior desastre de Canudos está no desastre humano. Um dos trechos mais difíceis de se esquecer de
Os sertões é a descrição de um menino de nove anos que manejava fuzis com perícia de soldado, menino que fumava e mentia com a desenvoltura de malandro adulto. Talvez seja primeiro
Dadinho de nossa literatura:
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Uma delas, porém, menor de nove anos(...) Respondia entre baforadas fartas de fumo de um cigarro (...) Falava uma criança. Num dado momento, porém, ao entrar um soldado sobraçando a Comblain, a criança interrompeu a algaravia. (...) Tomou-a: manejou-a com perícia de soldado pronto; (...) Deram-lhe, então, uma mannlicher. Desarticulou-lhe agilmente os fechos, como se fosse aquilo um brinco infantil predileto. (...) Aquela criança era, certo, um aleijão estupendo. Mas um ensinamento. Repontava, bandido feito, à tona da luta, tendo sobre os ombros pequeninos um legado formidável de erros. Nove anos de vida em que se adensavam três séculos de barbaria."
Ironia das ironias, alguns dos sobreviventes de Canudos foram para o Rio de Janeiro e o nome do morro original pegou nos cortiços cariocas. O Morro da Favela continou vivo.
Ao ler
Os sertões, percebemos que muito daquela falta de planejamento, desprezo pela vida e ausência do Estado continua sendo perpetuada em presídios, latifúndios, favelas.
Canudos parece que aconteceu ontem.